Monday, November 23, 2009

eu só não te convido para dançar...

Porque eu quero encontrar com você em particular

Há tempos tento encontrar um bom momento

Alguma ocasião propícia

Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus

Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus

Procuro explicar o meu sentimento

E só consigo encontrar

Palavras que não existem no dicionário

Você podia entender meu vocabulário

Decifrar meus sinais, seria bom

Composição: Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Cézar Mendes

manuel bandeira inventou um verbo, teadorar. mas a sorte dele é que sua amada se chamava teodora. é difícil inventar palavras para tentar falar sobre o que sentimos. ou pensamos sentir. sim, porque muitas vezes queremos sentir e o desejo acaba convertendo-se em algo real. talvez eu pudesse me transformar num sinal, como no conto do calvino. um sinal em milhões de sinais e esta troca sígnica seria a única forma possível de comunicação entre nós. faróis de carro na autoestrada. pontos de luz a brilhar no céu, como um farol perdido na noite distante. o problema dos sinais, e dos neologismos, é que corre-se sempre o risco de não se fazer entender. de ficarmos com a comunicação truncada, a meio do caminho. não sei se são teus aqueles faróis que brilham em sentido contrário aos meus. que correm em minha direcção. não sei se aquele facho de luz que me guia na noite escura é teu. nem sei o que ele quer dizer. posso semantizá-lo conforme o meu desejo: quero que sejas tu. e que sejas tu a caminhares em minha direcção. mas isto sou eu. é um jogo que jogo sozinha. e não te convido para jogar porque não sei se queres decifrar-me e decifrar os teus sinais. e como não te chamas teodora nem posso roubar o neologismo do bandeira. posso inventar tantos outros. mas te aviso, nenhum deles é publicável. mas se queres, digo-os ao teu ouvido. neles encontrarás, por certo, mais do que sinais. bem queria te convidar para dançar. mas só danço contigo se for em particular.

Sunday, November 22, 2009

o solista

ou como uma boa história pode ser transformada num filme mais ou menos. porque é isto que the soloist, de joe wright, é: um filme mais ou menos, cheio de boas intenções, de boas e comovedoras intenções, das quais o inferno está cheio. baseado numa história real, com bons actores, o filme peca pelo ritmo, ou melhor, pela falta dele, tanto na montagem, onde oscila entre planos médios e grandes planos metafóricos mal metidos e desnecessários, como no tom que o realizador tenta dar ao filme. ele fica sem saber se faz-nos a todos chorar ou se mantém a distância e mostra uma história real, dura e emocionante qb, deixando ao espectador decidir o que fazer com aquilo. e no meio de tudo, enfia-nos olhos a dentro, 90.000 sem-abrigo que vivem em LA. já nem tem piada fazer piada com o nome de uma cidade que nunca foi, nem na sua origem, angelical. porque LA é apenas uma das muitas metrópoles de nosso mundinho tão cheio delas, metrópoles onde esbarramos, quotidianamente, num exército de invisíveis: homens e mulheres, nossos semelhantes, que não vemos. ou fingimos não ver. às vezes é mais fácil pensar em semelhantes miseráveis em lugares longínquos. dos quais vemos as fotos e para os quais mandamos alvíssaras. as grandes cidades são nascedouros, e matadouros também, desta espécie, que é humana, tão humana como qualquer um de nós, mas que virou paisagem. pedra, asfalto, paredes sujas, recantos, becos imundos. se o filme tem uma virtude é a de mostrar-nos o quanto é difícil saber o que fazer. quando decidimos ver o outro, quando temos a coragem de olhá-lo nos olhos. nem sempre as escolhas são as melhores, apesar das boas intenções. nem sempre temos a capacidade de salvar ao outro, muitas vezes nem a nós mesmos. e entre o medo e o desassossego, fechamos os olhos. ou nem precisamos fazê-lo. eles não existem. são apenas miragem, são figurantes de um mundo que não tem espaço para mais ninguém. e para estes, não há música que os eleve ou redima. e me pergunto: haverá para o resto de nós?

Saturday, November 21, 2009

listening

Friday, November 20, 2009

da linguagem

a linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem no outro. é como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. minha linguagem treme de desejo. é o que eu tenho, a linguagem. e o desejo. ela vai mais longe que eu. vai onde não consigo ir, porque é plástica, extensível. porque é anódina. porque não sou eu, nem minha pele. são símbolos gráficos que significam muito. ou também podem não significar nada. a linguagem tem a importância que damos a ela. os significados que emprestamos aos discursos, aos textos. ao que dizemos com palavras. sinto-me confortável aqui, do lado de cá da linguagem. porque posso dizer tudo e dizer que não disse nada. porque sei que lês apenas o que queres. porque esfrego a minha linguagem na tua pele. há uma couraça impenetrável entre as minhas palavras e o teu corpo. e muitas vezes penso que tu também és parte do meu discurso. que só existes aí, na linguagem. que é o meu texto quem te profere. e a tua pele é uma miragem. e esfrego a minha linguagem no vazio. e desisto de provar a tua existência.

Thursday, November 19, 2009

os dragões não conhecem o paraíso

"tenho um dragão que mora comigo.
não, isso não é verdade.
não tenho nenhum dragão.
e, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. (...).
eles são solitários os dragões..."
c.f.a.

deve-se tratar um dragão pelo avesso? caio não sabia. não teve tempo de experimentar. também não sei. até porque o avesso é um ponto de vista. quem está dentro vê pelo avesso. e pode ser que o avesso seja o direito. devo confessar que não sei o que fazer com um dragão. tenho medo de afastá-lo com delicadezas. talvez não combine com dragões, a doçura. as palavras, a poesia. o melhor é não dizer mais nada. deixar que ele venha, quando vem. pressentir a sua chegada. acreditar que ele existe, porque é invisível. e saber que ele não permanece. os dragões são apenas a anunciação de si próprios. eles se ensaiam eternamente, jamais estreiam. não sei se caio conhecia assim tão bem os dragões. se calhar cada dragão é único e diferente do outro. em comum têm apenas a impermanência. a impaciência. o medo. sim, porque não pensem que eles não têm medo. talvez temam a teia que tecemos para tentar agarrá-los. talvez temam o desejo da teia. ou posso estar enganada. que sei eu de dragões. se os conhecesse bem saberia a resposta. para já, tenho apenas a pergunta: devemos tratar um dragão pelo avesso?


Tuesday, November 17, 2009

...

(há dias em que odeio ser mãe. porque me sinto incompetente. porque não há bulas. porque não gosto de ser dura. porque não posso estar com ele em todo o lado a ensiná-lo, a protegê-lo. porque às vezes não sei o que fazer. porque às vezes só me apetece chamar a minha mãe).

"abre os olhos e tudo é escuridão.
como tu desejas que alguém
- quem quer que seja: um pai, uma mãe, um deus -
se levante do seu sonho e corra e se descalce
só por ti."

carles torner

Monday, November 16, 2009

das camisas e de outras coisinhas mais

estava a desembrulhar uma camisa e, de repente, dei por mim a pensar na minha infância. estranha associação, pode parecer a partida. mas a verdade é que adorava ir, depois das aulas, à loja de pronto-a-vestir do pai da minha melhor amiga. ver as camisas nas caixas, algumas com tampa transparente, depois os alfinetes e a maneira como elas eram dobradas, arrumadas. gostava de levar para casa os alfinetes, os papelões que protegiam o colarinho e os punhos. minha mãe me perguntava para que é que eu queria aquelas coisas inúteis. para nada, claro. em breve estariam no lixo. mas gostava de tê-las comigo um bocado, como outras pequenas coisas que gostava de ver e que também, cumprida a sua função, não serviam para nada. como o papel roxo que cobria as maçãs, que vinham em caixas de madeira. as caixas me fascinavam, mas eram muito grandes, não tinha como levá-las para meu quarto. posso parecer maluquinha, mas gosto de coisas que ficam tão bem a embrulhar outras coisas, pacotes, laços, papéis... pequenos objectos cuja utilidade se finda quando abrimos o pacote. eu muitas vezes queria que eles perdurassem, um bocadinho mais que fosse. o tempo da minha mãe dizer: está na hora de deitá-los ao lixo.